Банкир-анархист и другие рассказы | страница 81
— Propriamente não se defende, mas admita-se que sim… Ora o trabalho não pode ser um mito, porque é uma realidade. Sim: produzir é criar realidade, isto é, coisas inteiramente inúteis. Um mito é a criação de irrealidades isto é, coisas úteis, vivas, que duram e perduram. De todas as indústrias modernas, disse ele, aquela que, sendo embora exercida em larga escala, o é contudo ainda de um modo inteiramente empírico, é a industria política. Ora o caminho natural da invenção — e a nossa época é acentuadamente uma época inventiva — é o de encontrar fórmulas científicas, e processos derivados dessas fórmulas, para eliminar o empirismo, a grosseria técnica, que é o primeiro estádio inevitável de qualquer arte ou de qualquer indústria. Por que razão não se teria ainda alguém lembrado de introduzir a ciência e a técnica racional no empirismo político, destruindo-o e aperfeiçoando a política? Pela simples razão que ninguém ainda disso se tinha lembrado. Até o primeiro que se lembra, ninguém se lembrou, em coisa nenhuma. Ora a minha firma foi a primeira que reparou que estava ainda livre o campo inventivo na indústria política. A minha firma inventou os processos técnicos desta indústria.
E desapareceu, sem mala e sempre sem o sorriso, do meu limitadíssimo horizonte.
O filatelista
(A inutilidade de dar conselhos)
Eu não aconselho. Colecciono selos. Para dar conselhos é preciso estar absolutamente seguro de que os conselhos são bons, e para isso é preciso estar certo (o que em absoluto ninguém está) que se está na posse da verdade. E, depois, é preciso saber se esses conselhos se adaptam ao indivíduo a que se estão dando, e para isso é preciso conhecer-lhe a alma toda, o que nunca se pode dar. E, além disto, ainda há que o modo de dar os conselhos deve ser exactamente o adaptado àquela alma; aconselham às vezes coisas que não se quer que se façam para, combinadas com elementos outros da alma aconselhada, darem o resultado que se quer. Só gente muito ingénua dá conselhos.
O que nós temos por verdade é apenas a mais provável, ou a mais improvável de várias probabilidades. Assim, qualquer indivíduo, por normalmente certo que no assunto se sinta, não pode jurar, com absoluta consciência intelectual, não só de que tal indivíduo do sexo masculino é seu pai, mas também de que tal outro, do sexo feminino, é sua mãe. Para crer que quem é tido por seu pai o é realmente, o mais que ele tem é, não lhe constando que sua mãe tivesse traído o marido, o julgue que não o fez nunca. Para ter certeza, intelectual, de que tal indivíduo é pai de outro era preciso ter assistido ao acto da fundação, ter inspeccionado de perto a fecundidade — de modo a não haver certeza □ — e ainda assim restava a ideia de paternidade metafisicamente considerada para mais embrulhar o assunto. Quanto a um indivíduo não poder afirmar que tal mulher é sua mãe, quem lhe diz que, parido por ela um ente masculino, este não foi substituído por outro parido, pela ama por exemplo, e por hipótese? O mais que se pode dizer é que isto é improvável — ou antes, que é menos provável que a hipótese contrária. Mas certeza certa propriamente não a há.